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—
MEMORIA
SOBRE A
FORMA^ÁO NATURAL
DAS
CORES.
DIOGO DE CARVALHO E SAMPAYO.
MADRID.
NA OFFICINA TYPOGRAPHICA
DA VIUVA DE IBARRA.
COM AS UCENfAS KECESS ARIAS.
MDCCLXXXXI.
N'ao ha letras que cheguem a poder dizer os mila-
gres que pode m as colores, e agrande forgasua.
francisco do llanda. Da Pintura antigua.
Liv.I. Cap. XXXVII.
MEMORIA
SOBRE A
FORMA^ÁO NATURAL
DAS
CORES.
A
Xa. presente memoria contém huma serie de ex-
periencias feitas na cámara escura , com a luz re-
flexa , tendo passado por meios achromaticos , ou
deferentemente coloridos. Os phenomenos que
exhibem estas novas experiencias , sao táo extraor-
dinarios , e interessantes , que se fazem dignos da
maior considerado : porque estabeleoida huma
vez a sua theoria , nao so resultará della a maior
luz á doutrina das cores; mas ainda a outros
ramos das sciencias naturaes. Nao he por ora o
meu finí entrar em huma táo larga discussáo , li-
mitando-me so a recordar históricamente huns
factos , que , pela sua novidade , e importancia,
nao pódem deixar de ser summamente aprecia-
A 2
C » ]
dos, por todos os que cultiváo esta sorte de co-
nhecimentos.
i De algumas experiencias , que eu tinha
feito anteriormente com as cores materiaes da pintu-
ra , e das ideas que sobre ellas me occorreráo,
deduzi os nove principios , que fazem a mate-
ria do meu tratado das cores , composto , e
impresso em Malta , no anno de 1787. Estes prin-
cipios sao os que se seguem :
PRIMEIRO P RI NCIP 10.
3 0 negro he huma cor positiva , na qual
o vermelho , o azul , o verde , e o amar ello , se
achao intimamente unidos , e em cuantidades
quasi iguaes.
SEGUNDO PRINCIPIO.
4 O branco he huma cor igualmente posi-
tiva , onde o vermelho , o azul , o verde , e o ama-
relio se achao extremamente divididos , ate o
[ 3 ]
ponto de se fazerem invisiveis.
TE RC E I RO PRINCIPIO.
5 O vermelho e verde , sao as córes primi-
tivas , e dominantes na Natureza : e o azul , c
amar ello , nao sao que puras modijicacoens des*
tas duas.
QUARTO PRINCIPIO.
6 A cor Azul nao he primitiva , mas sim
gerada pelas modijicacoens , que recebe a cor ver-
melha pela refrac cao da luz , ou mistura de ou~>
tras substancias.
QUINTO PRINCIPIO.
7 A cor Amarella nao he originaria , ou
primitiva ; mas sim secundaria , e derivada da
VERDE.
[4]
SEXTO PRINCIPIO.
8 O orqao sensorio da 'vista nada contri-
bu? para a formagao das cores ; as quaes sen-
do qualidades secundarias dos corpos , existem
com elles ,fora de nós mesmos.
SEPTIMO P RINCIPIO.
9 A. diversidade das cores nao resulta so
da diff érente contextura dos corpos naturaes ; pois
que sobre huma superficie homogénea vemos a o
mesmo tempo , diversas cores.
OITAVO PRINCIPIO.
10 As cores originarias e primitivas , e as
que dellas nascem e se compoem , necessitao pa-
ra se manifestar e compór , e da luz , e da di-
versa contextura dos carpos , que as refringem,
c rejiectem.
NONO PRINCIPIO.
11 As dvas cores primitivas , que residem
na luz , se manifestdo felá descomposigdo , que
a mesma luz, padece urtando os corpos naturaes:
e todas as outras cores , de qualquer genero que
sejdo , resultdo da differente combinando das duas
primitivas , nascida das diversas refracfoens9
com que a luz se modifica , tocando a superficie
dos corpos.
1 2 Tinha feito tambem muitas experiencias,
e observacoens , com p Prisma ; e me pareceu
que de todas ellas se podiáo deduzir igualmen-
te os nove principios , que se acháo em a no -
ta vii. das notas e illustracoens , que acom-
panháo o refferido tratado. Estes principios
sao os que se seguem:
P RI MEIRO PRINCIPIO.
1 3 As cores se manifestdo , e se formdo,
por tneio da refracto da luz,
SEGUNDO PRINCIPIO.
14 A luz que emana dos cor pos lucidos , e
a que he reflectida dos opacos , contém as mes-
mas cores , e produz os mesmos phenomenos.
TE RCE I RO PRINCIPIO.
15 A intensidad e da luz he igualmente des<
tructiva das cores , como a densidade da sombra.
Q U ARTO PRINCIPIO»
1 6 He com huma luz mediana , que appa*
recem , e se formao as cores.
QUINTO PRINCIPIO.
17 As cores primitivas sao duas , verme-
ZHO , e VERDE.
ÍY3
SEXTO PRINCIPIO.
18 A cor Azul he derivada , e nao primi-
tiva.
SEPTIMO P RINCIPIO.
19 A cor Amar ella he derivada , e nao pri-
mitiva.
oitavo principio.
20 O negro he huma cor positiva > e se
forma do vermelho e verde.
NONO PRINCIPIO,
21 O branco he huma cor positiva , e nasce
da extrema divisao das duas cores primitivas,
VERMELHO , e VERDE.
22 As pro vas destes principios se acháo Ca-
li
[8]
racterizadas em a Prefacáo do referido tratado,
no seguinte modo:
2 3 Te reí a mayor satisfagao de que os ver-
daderos amadores das sciencias naturaes , achem
as minhas hypotesis bem fundadas : e espero
que em huma sciencia puramente natural , nao
exigirao demonstragoens geométricas ; contentan-
do-se da experiencia , e de bem fundadas ana-
logias , que sao a verdadeira prova desta sorte
de conhecimentos.
24 Fiz depois outras experiencias , e obser-
v.ac^oens ; e no anno de 1788. compíiz a disser-
tacao sobre as cores primitivas , na qual dei
a mesma doutrina do tratado das cores , mas
em melhor ordem , e mais bem provada : ajun-
tando-lhe tambem hum breve tratado sobre
A COMPOSICAO ARTIFICIAL DAS CORES. A DIS-
SERTA CAO se redúz as tres proposicoens que se
seguem:
[9]
P RI MEIRA PROPOSIf AO.
25 Das cores permanentes , que se vem cons-
tantemente na superficie dos cor pos naturaes^
so o verme lho , e verde se pódem physic amenté
ter por simples , e primitivas.
SEGUNDA P RQ POSIf AO.
26 Das cores apparentes , que por meio de
adaptados instrumentos , se vem por algum tem-
po nos perfis dos corpos naturaes , so o verme-
lho , e verde se pódem physicamente ter por
simples , e primitivas.
TE RC E IRA PROPOSIfAO.
27 Das cores apparentes , que exhibe a luz
colorida separada dos corpos naturaes , so e ver-
me lho y e verde se pódem physicamente ter por
simples , e primitivas.
b 2
[ ">]
a8 Na Introdúcelo do breve tratado da
COMPOSJ^AO ARTIFICIAL DAS CORES , SQ lé O Se-
guinte:
29 AiNDa que no reino mineral domina a
cor vermelha , e no vegetal a verde, estas duas
cores tem tanta dependencia huma da outr a pa-
ra os seus fins , como os animaes , e vegetaes , a
tem entre si para a sua conservado ; e assim
se achao quasi sempre unidas , sem que jamáis
se confunddo. A existencia da materia vegetal
nos cor pos animaes , e da animal nos corpos ve-
getaes , he huma des cubería , que se deve as in-
contestaveis experiencias da Chymica.
30 E mais abalxo se lé o que se segué :
3 1 As cores elementares sao seis , duas Pri-
mitivas , e quatro derivadas immediatamente
das Primitivas.
32 As PRIMITIVAS Sao 0 VERME LHO , C VER-
DE.
C » ]
33 As derivadas immediatamente das Pri-
mitivas sao o azul , o amarello , o branco , e o negro.
34 Estas seis cores formao seis géneros en-
tre si differ entes , que abragao todas as espe-
cies de cores , que se *vem na Natureza.
35 As cores especificas formao- se da reci-
proca mistura das cores genéricas , óv.
36 As pro vas destas proposicoens se acháo
caracterizadas no seguinte modo , em a Prefa-
cio da dissertacao:
37 A theoria das cores , que na Primeira,
e Segunda Parte daquelle tratado , se expoem
segundo a serie das experiencias , e fundada em
razoens provaveis; se da agora em huma or-
dem natural^ e se estabelece em razoens , que se
approximdo d demonstragao.
38 A synthesis artificial das cores , que se
contém na Secgao Segunda , da Segunda Parte do
[ra]
mesmo tratado, e em dezoito Taboas coloridas; se
exfoem de novo em hum breve tratado , e se re-
duz a huma so Taboa , que presenta todas as
cores genéricas , com as suas respectivas especies.
39 A idea que eu tinha formado , de que
o vermelho e verde, eráo as duas cores pri-
mitivas , e de que se achaváo sempre juntas , sem
que jamáis se confundissem ; me fez lancár máo
de hum phenomeno , que , em Lamego , e nos
fins de dezembro de 1788. me offereceu a pu-
ra casualidade. Entrando em hum quarto , vi so-
bre a parede diversos reflexos verdes e ver-
melhos : e buscando a luz que os produzia , achei
que era a do sol , que entrava pela janella , e que
batia na parede opposta , e no panno verde de
huma meza ; interpondo-se huma cadeira , a cu-
ja sombra conrespondiáo os reflexos coloridos de
VERMELHO , e VERDE.
40 Retirei a cadeira , de sorte que náo hou-
vese corpo algum interposto , e logo desapare-
ceráo as cores. Interpúz huma bengala que le-
[13 ]
vava na máo , e se formarao logo as mesmas co-
res : e observei que a cor vermelha correspon-
día a o reflexo do panno verde ; e a cor ver-
pe á parte da parede , em que batía o sol.
4 1 Levantei o panno da meza , de sorte que
o sol desse so na parede ; e tambem desapare-
ceráo as cores : resultando dos corpos interpostos
huma mera sombra escura. Fiz que o sol ba-
tesse so no panno , sem dar na parede ; e igual-
mente desapareceráo as cores ? resultando dos cor-
pos interpostos a mesma sombra escura , que pro-
duzia a luz reflexa da parede branca.
42 No fazer estas experiencias , observei que
as cores eráo mais vivas , quando o quarto es-
lava mais escuro , e quando os reflexos eráo mais
fortes que a luz natural ; e que ellas se di-
luiáo , e chegaváo mesmo a desvanecer-se , quan-
do a luz natural , que se fazia entrar por ou-
tras janellas , ou pela porta , vencia , em for§a , a
dos reflexos.
[ 14]
43 Como a cor , que resultava do reflexo
verde , era a vermelha ; quiz ver que cor resul-
tarla de hum reflexo vermelho. Tirei outra vez
o panno verde da meza , e situeime de modo,
que parte do sol , que entrava no quarto , ba-
tesse na parede branca , e outra parte em hu-
ma aba do meu vestido , que era o uniforme de
Malta , de hum bello escaríate : e observando os
reflexgs na parede, os vi outra vez verme-
lhos e verdes ; conrespondendo a cor verde a
o reflexo vermelho , e a vermelha á luz da
parede.
44 Repetindo diversas vezes esta observacao,
cm differentes dias , e achando sempre os mes-
mos resultados , mais ou menos sensiveis , segun-
do os diversos gráos de intensidade da luz , e forca
dos reflexos ; fuquei tendo para mi : Que a luz do
sol era hum liquido achromatico com a proprieda-
de , como a agoa , de poder tingir-se de todas
as cores ; e que neste liquido nadaváo algumas
partículas coloridas , e subtilissimas , as quaes tln-
gindo a luz diversamente por meio das refrac-
[ '5 1
§oens , dos reflexos , e da inflexao , formaváo todas
as cores , que se vem nos corpos naturaes , e na
luz colorida.
45 Por huma concurrencia de diversas cau-
sas , nao pude seguir logo estas experiencias , e
fazellas na cámara escura , onde os resultados
deviáo ser mais claros , e sensiveis ; mas a sim-
ples observacao do primeiro phenomeno , e as
ideas que sobre elle me occorreráo , me fizeráo es-
crever nos elementos de agricultura , compos-
tos , e impressos em Madrid , no anno de 1790,
e 179 1 , o que se segué , tratando da luz consi -
derada como hum dos primeiros elementos da na-
tureza:
46 ¿4 LVt , tomada como elemento , nao he
hum corpo simples , mas sim composto de prin-
cipios entre si diversos. Hum jluido achromati-
co , subtilissimo , e diaphano , forma a sua ba-
se ; e huma materia colorida , heterogénea , e opa-
ca, nada continuamente neste Jluido.
c
C i«]
47 Se na luz nio existís se huma materia
achromati:a , a intensidade das cores da luz , se-
ria sempre a mesma , em cada huma das suas
especies ; por exemplo , o vermelho seria sempre
da mesma forga , sem pod¿r diluirse para mais
claro , nem concentrar- se para mais escuro» Ora,
a experiencia mostra que as cores da luz se
diluem , e se concentrdo , sem mudar em de na-
tureza ; segue-se que na mesma luz deve exis-
tir huma materia achromatica , capaz de pro-
duzir semelhantes modijicagoens .
48 He preciso tambem que a materia co-
lorida da luz nao seja homogénea ; porque se
ella fosse de huma so natureza , vermelha por
exemplo , nao se veria em todos os corpos mais
do que esta cor , clara , ou escura , segundo o
grao de intensidade , ou de rarefacto da luz.
Ora nos corpos ve-se huma prodigiosa varieda-
de de cores diferentes, nao so na intensidade,
mas tambera na qualidade ; consequent emente a
materia colorida , que nada em o jluido achro-
matico da luz , nao he homogénea , mas sim de
diversas naturezas.
49 Por huma serie de novas e decisivas ex-
periencias , feitas sobre a luz , esta suficiente-
mente provado , que a sua materia colorida he
de duas sortes ; huma capaz de excitar em nos
a sensagdo da cor verme lh a , e outra capaz
de produzir a sensagao da cor verde. Todas
as outras cores , que se vem na luz , sao com-
postas des tas duas , e devem reputar- se como
meros resultados da sua reciproca combinagdo^
com a materia achromatica , em hum estado de
maior ou menor densidade ; por que a luz tem
o poder de concentrarse , ate ser de hum bri-
Ihante , e forga insoportavel a o orgao da vis-
tai e de rarefazer-se , ate deixar de ser sensi-
vel a o mesmo orgao , e de fazernos visiveis os
objectos.
5 o E m fim f a materia colorida da luz he
da sua natureza opaca ; porque em se combi-
nando por meio de adaptados instrumentos , ou
impede a livre passagem a os rayos achromati-
C 2
C is ]
eos y ou nos cobre a superficie dos objectos , so-
bre que se estende a mesma materia colorida.
5 1 Sempre desejoso de averiguar o que re-
sultaría da combinacáo da cor vermelha e ver-
de entre si , e com a luz ; e o que tambem re-
sultaría de huma igual combinacáo das outras
cores genéricas , e especificas ; e offerecendo-se-me
hum momento de ociosidade , preparei huma cá-
mara escura , em Madride, nos principios de sep-
tembro de 1791. Esta cámara tinha huma janel-
la de dois postigos exposta a o meío día. No
postigo da parte direita , e a oito palmos do chao
risquei hum quadrado de hum palmo , do qual
dois ángulos se achaváo verticalmente situados,
e os outros na linha do horizonte. Em cada
ángulo fiz por hum tubo de dois palmos de com-
prido , e huma pollegada de diámetro , dos quaes
ametade entrava dentro da cámara , e outra
ametade ficava fora para receber a luz do sol ; e
por hum joelho , que tinháo no meío , se mo-
viáo docememente , e com firmeza , para todas as
partes , como os pequeños tubos de tres, ou qua-
[ 19]
tro Knhas de diámetro , com que sefazemas expe«
riencias do prisma. O postigo da parte esquerda,
servia para aclarar a cámara , quando era necessario.
52 As primeiras experiencias que fiz , foráo
com a luz reflexa de pedacos de seda e panno
de differentes cores ; mas nao conrespondendo os
resultados a o que eu esperava , pela muita luz
que introduziáo os tubos , e diluia os reflexos,
preparei humas como objectivas , feitas de seda li-
sa , ou assetinada , e de fitas da mesma qualida-
de , e das sinco cores genéricas , vermelho , ver-
de , azul , amarello , e branco ; as quaes objecti-
vas , diminuindo a intensidade da luz , ou a deixa-
váo passar pura , e achromatica , ou a tingiáo me-
lhor das suas respectivas cores : e se mudaváo
tambem com muita facilidade , para se fazerem as
experiencias.
J3 A sinco palmos dos tubos, e de fronte
dos mesmos, situei , quasi verticalmente , hum car-
táo branco de seis palmos em quadro , feito de
panno de linho , e apparelhado a colla com al-
C ™ ]
vayade ; a o qual se dava mais ou menos obli •
quidade , por meio de hum pontalete com char-
neira, que o sustinha como huma estante , e se
abria mais ou menos, como se dezejava. Entre o
cartáo e os tubos , pendía de hum braco arti-
ficial , e por hum cordáo fino , huma bola de páo,
de tres pollegadas de diámetro , que estava inv
movel quando se queria , ou se movía para os
lados , e se avizinhava mais ou menos do car-
táo , e dos tubos , para buscar differentes luzes,
ou reflexos de maior , ou menor intensidade. Jim
lugar da bola de páo, me servi tambem de
discos de folha de flandres , de tres , ou quatro pol-
legadas de diámetro , com hum pé de árame gros-
so , de dois ou tres palmos : e para variar os phe-
nomenos interpúz , algumas vezes , tres ou qua-
tro pennas de escrever , encruzadas humas pelas
outras : o que dava muitas mais tintas , que a bo-
la e os discos , e presentava o mais bello espec-
tro, que se pode imaginar.
54 Com a luz tingida das quatro cores re-
feridas , tendo passado pelas objectivas coloridas;
[ « ]
e com a luz achromatica, tendo passado pelas
objectivas brancas , fiz huma infinidade de expe-
riencias, combinando a luz e as cores em todos
os modos possiveis ; mas as que me pareceráo mais
dignas de memoria , sao as que se acháo figuradas
na taboa junta. Os pequeños circuios superiores de
cada figura , representáo as bocas dos tubos dentro
da cámara escura, guarnecidas com as objectivas
achromaticas (chamo assim as brancas) , ou colori-
das : os circuios maiores e inferiores , representáo os
resultados das combinacoens das cores , e da luz, so-
bre o cartáo : as linhas , que unem huns circuios a
os outros , representáo os rayos de luz achromatica,
e colorida : e o disco , que se acha entre huns e ou-
tros circuios , representa os corpos interpostos , e
particularmente a bola de pao , ou o disco de fo-
lha de lata. Eis aqui as experiencias, que sendo
repetidas muitas vezes por todo o mez de sep-
tembro , desde as nove horas da manhan , ate o
meio dia , e em tempo mui claro , deráo sempre
os mesmos resultados.
EXPERIENCIA I,
FIGURA I.
5 5 Puz em A , huma objectiva achromatlca;
e fazendo-lhe cahir directamente a luz do sol,
o que se deve fazer em todas as experiencias,
resultou no cartáo huma luz clara sem cor al-
guma : e o corp X , deu sobre o mesmo cartáo o
disco Z , mui escuro , e que parecía pintado de
negro.
EXPERIENCIA IL
FIGURA 2,
56 Puz em A , e B, duas objectivas brancas,
que deráo no cartáo huma luz mui clara sem
cor alguma : e o corpo X , deu sobre o mesmo
cartáo os circuios Y , Z , hum mais escuro que
outro , e que pareciáo lavados com tinta de chi-
na , e hum quasi nada de carmim.
[ *3 ]
57 Como da combinacáo da luz com a luz,
nao resultava cor alguma clara e distincta ; passei
a combinar a luz com as cores.
EXPERIENCIA IiL
FIGURA 3.
5 8 Puz em A , huma objecti va vermelha , e
em B , huma branca ; do que resultou no cartáo
huma luz clara , com algum reflexo vermelho:
e o corpo X , deu em Y , a cor vermelha ; e em
Z, a verde.
EXPERIENCIA IIIL
FIGURA 4.
5 9 Puz em A , huma objecti va verde , e em
B , huma achromatica ; o que deu sobre o cartáo
huma luz clara , apenas tingida de verde : e o
corpo X , deu em Y , a cor verde j e em Z, a
VERMELHA.
C >4]
EXPERIENCIA V.
FIGURA J.
60 Puz em A , huma objectiva vermelha,
e em B , huma verde ; e se formou no cartáo hu-
ma luz escurecida sem cor alguma : e do corpo
X , resultou em Y , a cor vermelha : e em Z,
a VERDE.
61 Como da combinacáo da cor vermelha
com a luz , resultou a cor verde , e da combi-
nacáo da cor verde com a luz, resultou a cor
vermelha : e como tambem da combinacáo do
vermelho , e verde , resultou o mesmo ver-
melho , e verde ; passei a combinar com a luz
estas duas cores.
E *5 ]
EXPERIENCIA VI.
FIGURA 6.
62 Puz em A, huma objectiva vermelha , em
B , huma verde , e em C huma branca ; o que
deu no cartáo huma luz clara sem cor alguma:
e do corpo X , resultou a cor vermelha em Di
a azul em E ; e a amarella em F.
EXPERIENCIA VIL
FIGURA 7.
63 Deixei ficar em A, B, C, as mesmas objecti
vas da Experiencia VI. e avizinhei mais a o cartáo
o corpo X , o que deu a Figura DGEMFI,
que á roda do triangulo spherico HLN , deu
as seguintes cores : Em DGHI , o vermelho;
emIHL , a cor de laranja ; em ILMF , o amarello;
em LMN, o verde; em GEMN, o azul; em HGN,
a cor de violeta ; e em LHN a cor negra , ou huma
d 2
[ *6 ]
sombra muí escura : o que dava a roda do mesmo
triangulo LHN , as cores prismáticas vermelho,
cor de laranja , amarello , verde , azul , e cor de
violeta.
EXPERIENCIA VIII.
FIGURA 8.
64 Situei quatro tubos verticalmente , e puz
em A , huma objectiva verde ; em B , huma ver-
melha ; em C, huma branca; e em D, huma ver-
de : o que me deu a Figura EFGHIL , que
contém as mesmas cores da Experiencia VII. mas
seguidas como as do prisma. Para ter esta figura
em ordem inversa , como a dá o Prisma quando se
invertem os ángulos , basta mudar a objectiva B,
para C ; e a objectiva C , para B.
65 Como da Experiencia VI , VII e VIII,
me resultaráo a cor amarella , a de laranja , a azul,
e a de violeta , prossegui ñas Experiencias com
estas novas cores.
[>7]
EXPERIENCIA VIIIL
FIGURA 9.
66 Puz em A , huma objectiva de cor de la-
ranja , e em B huma achromatica ; o que deu no
cartáo huma luz clara com alguma tinta cor de
laranja : e situando o corpo X , como na expe-
riencia primeira , resultou em Y , a cor de laranja,
e em Z , a azul.
EXPERIENCIA X.
FIGURA 10.
67 Puz em A , huma objectiva azul , e em
B , huma achromatica ; o que deu no cartáo hu-
ma luz clara com alguma tinta azul : e do cor-
po X, resultou em Y, a cor azul; e em Z , a ama-
relia.
[ >8 3
EXPERIENCIA XI.
FIGURA II.
68 PuzemA, huma objectiva amarella, e
em B, huma branca ; o que deu no cartáo hu-
ma luz clara , apenas tingida de amarello : e do
corpo X , resultou em Y , a cor amarella ; e em
Z , a cor de violeta.
EXPERIENCIA XII.
FIGURA 12.
09 Puz em A , huma objectiva cor de viole-
ta , e em B, huma achromatica ; o que deu no car-
táo huma luz sem cor determinada: e do cor-
po X , resultou a cor de violeta em Y , e a cor
verde em Z. E como da combinacio da cor
verde com a luz , Experiencia IIII. resultou a
cor vermelha , donde se principiou na Expe-
riencia III. dei por acabada a minha indagacáo,
[ *9]
tendo achado por ella : Que do vermelho , e
verde se formáo todas as cores características , ou
que positivamente se differencao entre si.
70 Ñas muitas experiencias que fiz para ob-
tér estes claros resultados observei : I. Que tres,
ou quatro objectivas achromaticas , produziáo o
mesmo effeito que duas : II. Que duas objecti-
vas vermelhas , ou verdes , nao produziáo re-
sultado algum claro , mas sim huma sombra es-
cura , sem cor determinada ; e que o mesmo acon-
tecía com tres, ou quatro objectivas destas mesmas
cores: III. Que a combinacáo do vermelho e ver-
de , com as cores de laranja, amarello , azul , vio-
leta ; e a de todas estas cores com a luz achromati-
ca , ( chamo assim a luz natural ) náo daváo resul-
tado algum essencialmente diíferente dos que pro-
duzem so o vermelho, e verde, combinados com
a luz : IIII. Em fim que as cores , e os reflexos , pa-
ra serem bem visiveis na cámara escura , requerem
huma luz mediana , a qual se obtem no acto das
experiencias , fazendo cahir a luz do sol em to-
da a objectiva branca , ou em huma maior , ou
[3o]
menor parte della : o que se regulará segundo a
escuridade da cámara , e a intensidade das objecti-
vas coloridas.
71 De todas estas experiencias , e observa-
se oens , se vé claramente : I. Que o vermelho,
e verde sáo as cores que sómente se pódem cha-
mar originarias , e primitivas ; porque se formáo
reciprocamente huma da outra , e porque dellas,
e da luz achromatica, se formáo mediata , ou im-
mediatamente , todas as outras cores : II. Que o
amarello e o azul , so se pódem chamar cores secun-
darias , ou derivadas ; porque huma , e outra se
formáo da combinacáo do vermelho e verde com
a luz : III. Que a cor de laranja , a de violeta , o
branco , e o negro , so pódem ser tidas por cores de
terceira ordem, ou compostas ; porque resultáo da
mistura do vermelho , verde , azul , e amarello,
em justas , e determinadas proporcoens.
72 Todas as outras cores , que se vem na
Natureza , sao meras tintas , modificacoens , ou
reproduccoens das cores primitivas , derivadas , ou
C 31 ]
compostas , e se reduzem necessarlamente a qual-
quer dellas.
73 Formando-se por estas experiencias to-
das as cores imaginaveis, so com a mistura da
luz achromatica , e da luz tingida de verme -
lho e verde , poder-se-hia provar com a maior
evidencia : I. Que a luz pura , he so composta
de rayos achromaticos , vermelhos e verdes;
porque por meio da refraccao , exhibe os mesmos
phenomenos destas experiencias. II. Que as cores
prismáticas ; as das sombras coloridas ; as acciden-
taes , e as de todos os corpos da natureza , se
formáo todas do mesmo modo ; isto he por hu-
ma mechanica mistura de principios achromaticos,
vermelhos , e verdes , em justas e determi*
nadas proporcoens.
74 Taes sao as novas e curiosas experien-
cias , feitas com a luz pura , ou tingida de di-
versas cores , tendo passado por meios achromati-
cos , ou diversamente coloridos ; e taes sao as in-
duc^oens que naturalmente se seguem das mes-
E
[3*3
mas experiencias. De humas , e outras náo faco
por ora a menor applicacio , nem ás minhas pri-
meiras hipótesis sobre as cores , nem ás dos gran-
des philosophos , que táo seriamente se occupa-
ráo deste agradavel , e interesantissimo objecto.
Reservo para hum tempo mais desoccupado , este
divertido entretenimento ; se entretanto algum
hábil indagador da natureza náo emprender táo
delicado trabalho , levado da sua amenidade , e
da grande luz que elle pode trazer , náo so ás disci-
plinas naturaes , mas a outras muitas sciencias e
artes.
F I M.
AVJSO TIPOGRAPHICO.
A impressao desta memoria sobre a composicao natural das
cores , de diogo de carvalho e sampayo , Cavalheiro da Ordem
de Malta , Socio da Real Academia das Sciencias de Lisboa , se con-
cluid a 14 de outubro de 1791. Imprimiráo-se sómente duzentos
exemplares.
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